Eu olho para você e meu cérebro quase definha de curiosidade. Gostaria de saber o que se passa nessa sua cabeça. O que tem em mente? Diz!
Você raspa o prato e eu me irrito. O talher encosta na louça, produz aquele barulho agudo e também me irrita. Talvez não irritaria tanto se não estivéssemos nesse silêncio sepulcral. Em outros ares seria um barulho comum, mas aqui não. Nesse silêncio entre nós até um alfinete caindo soa como um trovão.
Eu queria ter algo a dizer, talvez me aproximar. O que eu digo? Tudo que me vem à cabeça agora soa idiota, desnecessário. Mas isso não me aflige tanto porque talvez se estivéssemos tendo algum diálogo, ele não seria interessante. Você me contaria coisas aleatórias das quais eu não quero saber, e eu faria o mesmo. Ou poderia ser diferente? Não sei. O que será que ela está pensando agora? Ah, merda, come e esquece isso.
Elogio sua comida, sei que ela fica feliz quando faço isso. Ela agradece, satisfeita, e continua concentrada no seu almoço. “Faço isso porque te amo”, penso comigo. Você continua almoçando. Arroz, feijão e silêncio.
Abaixo a cabeça. “Não dá”, penso outra vez. Levanto com o prato nas mãos, coloco-o dentro da pia e me retiro. Estranho ser estranha para alguém com o mesmo sangue.
Indiferença, uma herança?
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