Brainbox

O mínimo

Tema se o sempre tornar-se obsessão. Tema com todas as forças, desconfie, pois o que tem necessidade de estender-se ao infinito talvez não seja tangível o bastante para ser suficiente no presente.

Todas as vezes que eu prometi o sempre a alguém, falhei. Se você também prometer, vai falhar, sabe disso. Amores que almejavam o eterno e duraram poucos anos, ‘amizades’ que pareciam ser concretas para toda a vida e atualmente se limitam a um ‘oi, quanto tempo, você sumiu’ desconcertado. O elemento em comum: tudo isso foi fruto do fim e eu o vejo com mais constância que o próprio nascer do sol.

Dizer ‘é para sempre’como forma de validação de concretude é sentenciar o término, iniciar o processo de consumação de algo que aparentemente era concreto, mas que o tempo e sua alta capacidade corrosiva de elos fracos fez questão de dar cabo.

Eu não quero dar oportunidade para que tudo se perca no tempo, não quero que a promessa de infinitos dias se personifique em uma lágrima no rosto de alguém que eu amo ou amei um dia e prometi nunca mais ir embora. Não, não quero. O meu para sempre dura 24 horas e nem dele dou conta. Nem um dia consigo administrar com êxito e como, por Deus, eu poderia confiar o eterno a alguém que amo estando ciente que em um segundo tudo pode mudar? Posso morrer atravessando a rua, posso morrer tomando meu inofensivo café da manhã, eu posso morrer! Tudo pode, a qualquer instante. É insanidade prometer ou oferecer algo desse peso! Não, não posso.

Aboli os semprismos das minhas concepções e me sinto mais leve. Não, não vou estar aqui para sempre. Dito isso, agora posso aplicar com maior desenvoltura a tarefa de tornar tudo mais concreto. Os meus cuidados, os meus sentimentos, as minhas atitudes e todo o zelo que me cabe ter. Sem o vir-a-ser, sinto-me livre para trazer o possível e o tangível para quem eu quero bem. Ao abdicar o eterno, fiz um favor a eles: poupo-lhes a missão com o fracasso certo de estender tudo ao infinito, poupo-lhes o intangível, o vulnerável e o sujeito à incerteza. Poucas pessoas eu quero por perto, e não vou desperdiçá-las assinando esse contrato de estupidez.

Não estarei aqui para sempre, leiam bem, mas uma coisa ofereço em troca: os meus afáveis sentimentos. Eles vos trazem para perto do meu agora, e estando perto posso zelar por quem os merecem até o último suspiro de exaustão. Sem o peso do sempre, as coisas ficam livres para serem concretas o suficiente e assim trazerem o conforto que tanto se busca no eterno.      

1 year ago
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