Escureceu, hora de acordar. Passa a hora, passo eu. Tic-Tac. A fumaça do cigarro serpenteia, ondula e desaparece. Divago, me desfaço, enlouqueço, despedaço. Ensaio o sono, ensaio o sonho. O silêncio me engole e eu o engulo – Que indigestão. O cérebro não para, o cérebro pula, dança na madrugada insana e usa meu sossego como pista. Esse meu céu não tem estrela, tem tinta, tem cimento. Minha grama é feita de panos e molas. Permaneço no meu piquenique sem sol. Tic-Tac. Sai o breu, entra o azul escuro louco. Divago, me desfaço, enlouqueço, despedaço. Os pés do meu cérebro começam a se cansar, quanta dança, que festança! Tic-Tac. Ensaio o sono, ensaio o sonho. Sai o azul escuro louco, entra o amarelo-avermelhado tímido. Pés descalços, a festa está no fim, copos de consciência quebrados, garrafas de expectativas vazias, bitucas de sonhos apagadas. Ora, sinfonia de passarinhos: amanheceu. Quantos rabiscos sem sentido, que chatice! O mundo abre seus olhos, meu cérebro chegou em casa – exausto, podre, medíocre, cansou de festa. O sol acordou, com licença: agora é minha vez de anoitecer.
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