Brainbox

O mínimo

Não sei se é algo que vem crescendo de uns tempos para cá ou se é algo que sempre foi assim, mas eu simplesmente nunca vi tanta superficialidade. A superficialidade que eu digo é de valores, convicções. Pelo que tenho visto e muito, para mexer ou alterar a convicção de muitas pessoas (brasileiros, no caso), basta optar por um dos extremos – ou até os dois: seja conciso, use um vocabulário ligeiramente difícil, tenha desenvoltura, use argumentos que, embora sejam imbecis e/ou sem fundamento, façam no mínimo um pouco de sentido. Ou faça alusão a um futuro fim que está próximo para que possam aderir à causa, faça com que sintam o poder de mudar algo (quando, na verdade, não podem ou então não é tão simples quanto parece), abuse de argumentos vazios, mas que mexam com o “revolucionário de sofá” que existe em cada um.

Para mostrar que isso não é só uma idéia infundada, pense em quantas coisas de grande debate atualmente se encaixam nessas duas opções. Recentemente, abri o facebook e me deparei com “Menino é preso na Indonésia por dizer que Deus não existe, se você o apóia, compartilhe a foto com a frase “Deus não existe””. 

Outra: estupro no Big Brother e a discussão incessante (que, vejam, o estupro ficou como coadjuvante na história) sobre o programa ser ou não algo que “engrandece” os expectadores, sobre ser ou não “a morte da cultura”. Mas, o foco não é isso e sim a repercussão que teve. Muitos apoiaram a Monique, se mobilizaram, outros apoiaram o Daniel e por fim o debate foi “sério”. Tudo bem, passou. Logo depois, surge o hit da “Luíza no Canadá” e há outra grande mobilização, as pessoas se divertiram (inclusive eu) e ficou tudo certo. Eis que agora surge o nosso querido jornalista Carlos Nascimento dando um grande “esporro” em todos aqueles que aderiram à Luiza no Canadá, à Monique, ao Daniel, ao Big Brother, a tudo. E, surpresa: virou sucesso também.

Carlos Nascimento foi “aclamado” no facebook e nas redes sociais por “ter falado tudo”, por ser brilhante, por, basicamente, ter chamado a todos nós de idiotas. O público alvo da crítica foi o mesmo público que o enalteceu e o chamou de “herói”, “sensato”. Isso tudo é uma prova quase que incontestável de tudo aquilo que iniciei o texto dizendo.

O que me incomoda não é o fato de todos aderirem a uma causa. Isso é problema de meu, problema de vocês. Todos nós temos direito de abraçar uma causa caso nós achemos interessante fazê-lo. O problema é que, atualmente, qualquer causa é aderida. Não há “filtro” de causas, chegamos a um ponto em que qualquer coisa que faça no mínimo um pouco de sentido ganha proporções enormes. Eu não entendo, simplesmente não entendo como alguém não pode ter “filtro de idéias”. Se alguém me chama de idiota, no mínimo eu vou refletir se a pessoa tem razão, se faz sentido. Se alguém diz que um programa é imbecil ou quem o assiste se torna um também, no mínimo eu vou pensar se realmente é isso, se, de fato, eu sou alguém que assistiria um programa imbecil e me tornaria imbecil também.

É realmente triste o fato de alguém ser tão influenciável. Se deixar afetar tanto por qualquer coisa, deixar que mudem suas convicções com poucos argumentos (quase sempre sem sentido). Ser cabeça dura (no sentido de convicções) nunca foi uma qualidade tão preciosa e escassa. Ser persuasivo também nunca foi uma qualidade tão útil. Falar bonito não significa coerência, concisão de idéias e argumentos não quer dizer que algo seja certo e digno de apoio.

Antes de aclamar alguém que te chama de idiota em rede nacional, simplesmente reflita se os argumentos fazem sentido. Antes de aderir a qualquer coisa, simplesmente reflita. Antes mesmo de achar que eu tenho razão com tudo isso que eu disse até agora, pense. Posso ser alguém que tem razão, que diz algo que está certo tanto quanto posso ser apenas uma babaca com argumentos infundados e um pouco de concisão para fazer a babaquice fazer sentido. Isso quem decide é você, mas no mínimo pense. Não só comigo, mas com tudo. Faça um favor a si mesmo(a) e mim também. Agradeço.

4 months ago
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