Brainbox

Por Nyle Ferrari

Genuína liberdade

Inúmeras foram as vezes em que frustrei e acabei relacionamentos por não saber a diferença entre amor e carência. Na carência, consideração vira motivo para amar. Um olhar vira motivo, uma palavra afetuosa vira motivo, conversação agradável e contínua vira motivo. Se não tem motivo, arranja: qualquer otário em essência, mas com comportamento levemente afetuoso torna-se aceitável.

Dizendo assim chega a ser ridículo de tão banal, mas na prática é totalmente diferente. Eu poderia ficar aqui por dias falando sobre quantas vezes eu disse que não mais me envolveria e depois de algum tempo, algumas conversas contínuas, pessoas novas, gostos parecidos e alguns esboços de afeto, vinha à minha cabeça “puta que pariu, de novo não…”.

Houve um tempo em que eu achei que jamais viveria sem determinada pessoa. Eu amava. Para mim não havia prova de amor maior que essa: eu não consigo viver sem você, não dá, é impossível. O relacionamento acabou, eu vivi. Por um tempo, capenga, mas vivi.

Cerca de dois anos depois, nunca estive tão feliz por ter acabado, nunca vi as coisas com tanta clareza. Reformulei conceitos, adquiri certa sensibilidade (ou não adquiri e continuo babaca, talvez?), e chego a rir só de lembrar o fato de ter encarado aquela dependência doentia como amor. Hoje estou em outra, e sei que se acabar, posso viver. Vai ser terrível, mas eu posso. Você não é o motivo pelo qual eu vivo e sim o que faz esse viver ser menos difícil.

O que difere o amor da carência é saber que você pode viver sem determinada pessoa, mas não quer. Você tem a sensibilidade de enxergar que a vida continuaria, você poderia ter outras pessoas, mas simplesmente não quer, não se interessa. Esse tipo de liberdade não mais atrai, e é nesse estágio que se consegue a “alforria” da carência. Só aí você consegue sentir o amor em sua plenitude, desfrutar da genuína liberdade. 

Teoricamente, optar por “prender-se” quando a liberdade está a poucos passos é uma atitude insana. O curioso é que, tendo você comigo e sentindo coisas tão incríveis, enlouquecer não me soa nem um pouco ruim.

  • 21 December 2011
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