Brainbox

O mínimo

Não é bem por aí

Exaustivamente, todos nós sabemos quem foi Steve Jobs e o que ele fez. Mesmo quem não sabia, com a repercussão de sua morte, passou a saber. A mídia quase entrou em colapso. O twitter então, nem se fala.

Não estou aqui para falar do Jobs em si ou tecnologia, nem preciso. Internet, televisão, jornais e revistas já fizeram esse papel e estamos à beira de uma overdose do assunto. Estou aqui para falar aos brasileiros bem nascidos para irem com calma porque não é bem por aí. Vi pessoas comuns de luto pela morte (eu entendo que você duvide, nem eu consigo acreditar). Presenciei briga em rede social por causa do assunto.

Apple já está quase no Iphone 5 e tem gente ainda pagando o primeiro que comprou. Há quem não tenha uma situação econômica ruim, mas ainda não está nem perto de ter um celular acima de dois mil reais por diversos motivos (o pão com ovo frito que comi agora pouco que o diga). De qualquer forma, a morte de Jobs, particularmente nas redes sociais, foi como acidente de trânsito em cidade interiorana: acontece, as pessoas se aglomeram, comentam, outras que não viram depois ficam sabendo a respeito, mas ao passar dos dias ninguém nem toca mais no assunto.

Pergunte à sua mãe ou seu avô quem foi Steve Jobs. Pela idade, pode ser que eles não conheçam. Então pergunte a algum jovem. Entre 15 e 19 anos, mas não pode ser qualquer jovem: um jovem da classe b ou c. Não me espanta se ele também não conhecer. Achou isso inconcebível? Então vou lhe contar um segredo, mas não espalha: nem todos têm culhão para comprar um produto da Apple e provavelmente nunca terão. Logo, não faz diferença saber quem está por trás da marca. Digo ‘culhão’ porque não sei se parei no tempo em que dois mil reais era muito dinheiro, mas diversas coisas que tenho lido durante esses dias quase me fizeram acreditar que todo mundo está com a vida ganha e pode pagar essa quantia em um produto. Não podem.

A morte de Jobs foi “dolorida” para um público seleto. A verdade é que a maioria dos brasileiros estão se lixando para Jobs, Apple, Iphone, Ipad, Macbook, Ipod. Fica difícil colocar um produto dessa marca como prioridade se o seu salário te permite apenas pagar contas aqui e acolá e ainda ter um dinheiro para sair e se divertir. “Mas que merda”. Pois é, amigo, que merda. A realidade costuma a ser uma merda.

Que foi uma perda grande, foi. Que devemos uma geração inteira de tecnologia a ele, devemos. Mas é só. Li lamentação demais, fui ‘apedrejada’ por isso, mas não consegui acreditar em metade dessa comoção nas redes sociais. Há mortes que teriam um impacto astronômico na nossa sociedade, pois nós sentimos um pouco de nossa história indo embora. Essas sim têm real comoção, não é efêmero. Há personalidades que englobam um pouco de você, um pouco de mim, um pouco da geração do seu avô, do seu pai. Independentemente de poder aquisitivo, atinge a todos.    

Se você ainda não entendeu o que eu quis dizer até agora, aí vai uma lição de casa que possa sintetizar a idéia: pense na morte de Silvio Santos.

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

Paulo Leminski

(via catsthattalk)

(via catsthattalk)

Não só

Depois de tanto analisar os próprios erros, experiências e ter contato com as de outras pessoas você acaba adquirindo uma certa sensatez. Costumam a tomar a solteirice como sinônimo de solidão, falta de opção ou infelicidade e não vejo dessa forma. Qualquer um é livre para optar por não ter ninguém ou não se vincular diretamente a ninguém. Para muitos isso soa estranho porque ter outra pessoa proporciona segurança e plenitude na vida e se alguém não tem isso parece não poder ser completo. As coisas não funcionam bem assim. Eu não sei você, mas para mim essa dependência me parece doentia. Na incapacidade ou falta de tentativa de obter segurança e plenitude a si mesmas as pessoas procuram outras que sanem essa defasagem. Não são todos os casos, há quem consiga estabelecer isso a si e que procure outro alguém para apenas partilhar sentimentos, mas não é tão comum. Não digo que é errado ficar dependente para se sentir seguro e pleno, só acho que depois de vivenciar isso tantas vezes constatei que não é o que me satisfaz. Não quero deixar a minha estabilidade emocional nas mãos de outra pessoa e nem depender dela para tê-la.

Estar solteiro a meu ver não é ruim. Não vou mentir que às vezes sinto falta de alguém que me faça companhia, eu sinto, não sou hipócrita. Porém essa vontade é esporádica e não me causa nenhuma sensação ruim a ponto de eu querer me aventurar nas complexidades de um relacionamento. Não é fácil fazer algo dar certo quando não depende somente de você. Parece banal esse pensamento e é, mas muitos não entendem isso. Eu não preciso ir longe, somente pense na quantidade de relacionamentos seus que não deram certo ou no mínimo de conhecidos, amigos. Tenta-se desenfreadamente obter êxito em algo que já nasce comprometido, instável. Espera-se muito, faz-se pouco. As pessoas ingressam em relacionamentos já estando em dívida consigo mesmas e esperando que o outro tenha o necessário para quitá-la. E eu não consigo nem pagar as minhas, que dirá as de outro alguém… Demorou, mas hoje eu me agradeço por ter compreendido isso.

Ameno

Se eu tivesse que resumir todo mecanismo da paixão, eu resumiria nesta palavra: previsível. ‘Ouço essa música e lembro de você’. ‘Minha vida ficou melhor depois que você apareceu’. ‘Obrigada por existir’. ‘Incrível como você me faz bem’. Eu aposto todo o dinheiro do planeta que em pelo menos um momento da sua vida você já ouviu ou disse uma dessas frases (se não todas). E é lógico, me surpreenderia se não fosse assim. O início das relações quase sempre se sucede da mesma forma. Não há mal nisso, de forma alguma. O problema é que eu simplesmente perdi o interesse. Enjoei desse mecanismo como quem escuta a mesma música tantas vezes que se cansa. A previsibilidade do processo afetivo me fez enxergar as coisas com mais precisão e agora me sinto insatisfeita com o que está ao meu alcance. Não me surpreendo mais e é difícil encontrar alguém que fale algo diferente do que eu já ouvi diversas vezes. Encontro-me basicamente naquela situação em que você está deitado no sofá, quer mudar de canal, o controle remoto está longe e então você continua assistindo o programa por pura preguiça de levantar. Estaria mentindo se dissesse que hoje não me interesso por ninguém. Há interesse, há afeto, um flerte ali, outro acolá, mas e daí? Eu preciso de muito mais do que as pessoas tem me oferecido. Eu preciso de muito mais do que flerte para sentir vontade de levantar do sofá. Eu costumava a gostar de me atirar na fogueira. Hoje eu passo frio porque aprendi que queima. 

Perdas

Uma das coisas que mais me deixa frustrada é ter que consolar pessoas que perderam alguém. Digo no sentido literal de perda, a morte propriamente dita. Um ‘sinto muito’ é vago. Não, eu não sinto muito. Não sei o que você está passando, não sinto nem um terço da dor que você está sentindo. ‘Você vai superar’. Como uma pessoa supera a morte de alguém que ama? Não há superação. Com o tempo há aceitação da perda, mas superação eu creio que não exista. Perdi a conta de quantos enterros e velórios deixei de ir. Alguns encaram como indelicadeza, falta de consideração. Eu encaro como atestado de covardia e falta de resiliência da minha parte. Infelizmente é assim. Se eu ainda soubesse consolar uma pessoa enquanto ela chora, ainda poderia ser útil para algo, mas nem isso. Não sei como abraçar sem parecer desajeitada, não sei o que dizer, como agir, chega a ser patético e é, aliás. As relações humanas são regidas pela reciprocidade na maioria das vezes. Talvez eu não saiba como lidar com o choro de terceiros porque eu mesma sou incapaz de fazê-lo na frente das pessoas. De maneira geral, mortes, velórios e enterros acabam por ser uma das formas mais eficazes de tortura psicológica para mim. Aliás, não só para mim, para grande parte das pessoas é. A diferença é que se tratando da perda alheia, muitos conseguem fingir compaixão naturalmente. Eu, feliz ou infelizmente, ainda não aprendi. ‘Vai ficar tudo bem, fulana(o)’, ‘Sinto muito pela sua perda’, ‘Deus sabe o que faz’, ‘Lá em cima ela/ele está olhando por você’…

 

Passo.

Céu?

Morar em lugar alto tem lá suas ‘vantagens’. Observar as pessoas de cima sabendo que elas não podem te ver é uma experiência interessante. A vizinha da frente lava a louça e coça a orelha com o ombro porque suas mãos estão molhadas. Ao enxugar uma xícara, acidentalmente a deixa cair e solta um ‘puta que pariu!’ mais expressivo que eu já ouvi em toda minha vida. Um casal passa pela rua brigando pateticamente. Ele solta um solene ‘foda-se você’ e ela não faz nada. Um grupo de amigos passa falando alto de uma forma que se eu não soubesse que é um grupo de pessoas, poderia jurar que babuínos invadiram a minha rua. Aliás, peço desculpa aos babuínos pela comparação. Um cão desnorteado anda pela calçada, cheira o lixo do vizinho e segue em frente. Enquanto acendo um cigarro, um mendigo passa pela mesma calçada, revira o lixo do vizinho, não acha nada e segue em frente. A miséria psicológica, social e cotidiana assume proporções astronômicas quando são observadas com atenção, tenha certeza disso. A maioria das pessoas não faz idéia do quão patética pode parecer algumas atitudes ou situações se observadas de cima com olhos atentos. Se Deus existe, agora eu realmente compreendo porque ele nunca se manifestou.

Peça

A incontinência do pensamento nem sempre é ruim. Nem sempre, mas na maioria do tempo é e o problema é esse. Pior que não poder conter o fluxo de informações, é saber que grande parte das pessoas não compreendem ou não querem compreender o que você pensa. O que é normal, não pretendo apocaliptizar esse fato, apenas expor uma reflexão. Meu ponto de vista sobre determinados assuntos é uma peça, porém essa peça não encaixa em lugar algum a não ser dentro de mim mesma. Se trata mais do modo como a opinião soa, da forma como as pessoas vão entendê-la do que a opinião em si. É como contar a alguém um sonho tido durante a noite: o mais próximo que você consegue chegar da reprodução fiel do sonho é a forma como ele vai ser imaginado na mente de quem o ouve. Explicando a grosso modo, você simplesmente não consegue mostrá-lo, apenas reproduzi-lo em palavras e o modo como ele será elaborado na cabeça de outra pessoa não é, nem de longe, semelhante ao modo como ele está na sua memória. O mesmo acontece com algumas das minhas reflexões. As pessoas ouvem e deturpam, absorvem minhas palavras e as reproduzem da maneira como as convém. Complicado, porque é interessante estabelecer uma conversa em que ambos são devidamente compreendidos. Não falo de compreensão de sentimentos, de diálogo na relação afetiva, nada disso. Falo sobre diálogos triviais com qualquer pessoa. Na maioria das vezes eu guardo essas opiniões ‘sem encaixe’. É mais fácil não expor do que tentar e parecer idiota. Ou ainda arquitetar palavras para tornar o pensamento mais compreensível a outras pessoas e não obter êxito. Como agora.

A voz

Se está tudo quieto, certamente há algo errado. Não falta devaneio, muito pelo contrário. E o que me intriga é exatamente isso: silêncio onde há barulho demais. Talvez eu tenha perdido o tato, não sei. Há muito a ser dito, mas às vezes falta voz, ou algo a impede de sair. A rouquidão me preocupa, isso não está certo. Perco o sono procurando o que perdi, se adormeço é como se não o tivesse feito. Percebe como o silêncio está errado? Há muito a ser dito, escrito. Ocupo-me comigo e esqueço-me de mim. Vago mecanicamente pelos dias, mas sou instável o suficiente para arrepender-me e retomar a voz. Volto a tempo, permito-me ser, tatear o errado, expressar o incerto, porque é assim que tem que ser e cá estou. Não deve e nem pode haver silêncio: sempre há o que ser dito. Se um dia eu me abstiver da escrita, haverá duas hipóteses: ou aprendi a lidar com o que está aqui dentro e o silêncio passou a bastar-me, ou tornei-me estúpida o suficiente para acomodar-me nele. Provavelmente a segunda.

Carpe noctem

Negro pano de botões reluzentes

Cobre eles, sobro eu

Devagar eles, divagar eu

Tecendo-me do negro pano

Inquietando-me no negro pano

Sem eles, a sós Eu

Quem dera infinito fosse o breu

Apagaria eles, libertaria eu

Cessa! Vem a tesoura dourada:

Despertando eles, enjaulando eu

Herança

Eu não saberia dizer com precisão, e talvez nem você, quando tudo começou a ficar assim. Não entra na minha cabeça tamanha falta de proximidade. Não porque eu não consigo compreendê-la, mas sim porque eu não sei a causa da existência dela e nem você. Talvez você saiba e permanece calado, talvez você realmente queira que ela exista e eu me martirizo à-toa. Eu sou culpada e você também. Eu gostaria de alguma aproximação, mas eu entendo porque ela não ocorre porque eu também não tenho coragem de tentar. As coisas não funcionam dessa forma, não se pode simplesmente modificar do nada algo que normalmente leva-se anos para construir. Se em algum momento da minha infância isso se perdeu e nunca mais foi restaurado, não tem volta. Não adianta, não soa espontâneo, não soa como deveria, amor paternal de fachada não funciona. As lembranças afetuosas não enchem uma mão, os minutos de conversa juntando todos não dão nem quarenta minutos. Para onde foi todo esse tempo restante? Você sente a falta dele tanto quanto eu sinto? Eu me conformo com o fato dessa distância simplesmente ser irreversível, mas eu daria tudo para obter uma resposta. Confesso que admiro sua personalidade, mas prefiro não te dizer. Nossas opiniões divergem, e essa divergência contribui ainda mais para acentuar o que já está perdido há anos. É inconcebível alguém simplesmente não ter coragem de dizer que ama uma pessoa da qual esteve próximo a vida inteira. Somos patéticos, covardes e complacentes. Acomodamo-nos nessa relação letárgica e já é tarde. Eu beiro o desespero quando penso que amanhã posso acordar e não te ter mais aqui, eu não teria memórias afáveis suficientes para preencher a sua ausência – e para ser sincera eu não tenho. Permaneço inerte, não me aproximo porque eu não sei por onde começar, não sei como agir, não sei o que dizer e sei que você também não sabe. Somos ilustres covardes acomodados e assim infelizmente permaneceremos. Herança de família…