Brainbox

Por Nyle Ferrari

“Find what you love and let it kill you”

—   Charles Bukowski 

Pai?

- Comprei um presente! onde você estava todas as vezes que precisei de você?

 - O que? Camisa?

- Sim, abre aí por que sempre tão distante?

 - Ó, bonita essa, pano bom. Gostei, brigado.

- Que bom que gostou, feliz dia dos pais por que nunca tentamos nos aproximar? por que você fodeu tudo?

      e voltamos onde havíamos parado –

a essa relação tão vazia e forçada quanto o seu abraço

Torna-te o teu problema

Você tem depressão, eles dizem

Dá-lhe prozac, fluoxetina

Você está ansioso, eles dizem

Dá-lhe rivotril

Você tem TDAH, eles dizem

Dá-lhe ritalina

Você tem TOC, você é limítrofe, você é sociopata.

Você é bipolar, eles dizem

Você, em toda sua complexidade, toda sua essência: é isso.

 

Você tem um sistema nervoso complexo que responde inexoravelmente ao meio onde você vive, às situações

Você é capaz de sofrer: ora, então você sofre. Mas você está doente, o certo, meu amigo, é ser feliz, eles dizem.

 

Você precisa estar no trabalho às 7 – e geralmente chega em casa depois das 23 –, mal tem tempo para comer e olhar alguém nos olhos, seja o seu amigo, a sua família ou você mesmo; você mora há anos em uma casa e nunca conheceu o seu vizinho. Você precisa ser eficiente, você precisa entregar no prazo, produzir.

Aí  o seu      d i a        p     a   s   s   a

 

                                                          Se sua vida fosse menos opressiva e controlada, você se distrairia tanto? Que motivos, por Deus, você teria para se concentrar em uma realidade tão desinteressante?

                                                         Se sua vida tivesse sido menos veloz e efêmera, você seria tão ansioso, teria a pressa esculpida em suas vísceras?

Mas você não pode perder o foco, não. Você tem TDAH, corrija isso - você está doente, eles dizem. Toma esse rivotril, fica calmo.

 

Você é incapaz de sintetizar quem você é e ainda não sabe o que vai comer no almoço. Mas você precisa decidir o que você vai fazer para o resto da vida antes dos 20. E rápido – não pode perder tempo não, eles dizem.

Toma isso, impermeabiliza esse sistema nervoso

Tal como o concreto dos espiões de Deus, tal como o asfalto da avenida salpicada de cabeças, pressa, carros e vazio.

Torna-te o teu problema, dá menos trabalho que mudar de vida, desacelerar, Ser Humano.

O que você sente vai afetá-lo menos, eles apostam.  

 

Você está doente e tem isso, dizem.

Você, em toda sua complexidade, em toda sua essência, como ser que por poder sentir e chorar, sente, pensa e chora.

Resume-se a isso. 

 

 

Paranoid Android no piano. 

(Source: chicaney)

booksnbuildings:

Trolleholm castle library, Sweden

paraíso

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paraíso

Os últimos dias

Que a terra há de comer,
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço:
para um momento; continue.

Descubra em seu movimento
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de vôo.

Prazer de ouvir música;
sobre o papel deixar que a mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
certos objetos, diferentes a uma luz nova.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como vivem, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instante
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem na certa um cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estátua: é um
torso de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte, e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas;
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena amplo fulgurante, facho lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento, amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros, 
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo, 
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas, 
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro, 
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de justiça, revolta e sono, adeus,
adeus, vida aos outros legada.

de “A Rosa do Povo”, Carlos Drummond de Andrade 

LXVI

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.


Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem-fim, e odiando-te rogo,
e a medida do meu amor viageiro
é não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor a sangue e fogo.

(Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda)

XXII

Quantas vezes, amor, te amei sem ver-te e talvez 
        sem lembrança,
sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura,
em regiões contrárias, num meio-dia queimante:
era só o aroma dos cereais que amo.

Talvez te vi, te supus ao passar levantando uma taça
em Angola, à luz da lua de junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e ressoou como o mar desmedido.

Te amei sem que eu o soubesse, e busquei tua memória.
Nas casas vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato.
Mas eu já não sabia como eras. De repente

enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida:
diante de meus olhos estavas, regendo-me, e reinas.
Como fogueira nos bosques o fogo é teu reino.

 

(Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda)